Luiz Netto

Fotografia & Meio Ambiente

Date archives junho 2016

Meio Ambiente

Olimpíadas, CIGS e uma onça a menos

A ausência do mundo virtual esses dias me deixou um pouco fora do olho do furacão do assunto ambiental da semana, a fatídica morte de Juma, onça abatida pela ignorância humana no desfile da tocha olímpica. Juma era bem conhecida, talvez a onça mais fotografada do país, sempre aparecendo nos mais diversos eventos do Centro de Instrução de Guerra na Selva – CIGS.

A vantagem de escrever sobre temas delicados como este após alguns dias é que fora do calor das discussões ácidas, que ganharam palanque e amplificadores com o advento das redes sociais, é possível fazer análises um pouco mais honestas e sem exageros de qualquer parte.

Inicialmente, a César o que é de César. Sejamos honestos com o CIGS. Quem já foi ao zoológico que o exército brasileiro mantém na capital do Amazonas, sabe que estamos falando de um local de extrema relevância para conservação da biodiversidade brasileira.

Sem o radicalismo dos que que querem fechar os zoos pelo mundo, e sabendo da relevância ímpar que estas instituições possuem nos trabalhos de educação ambiental, reprodução, abrigo, recuperação e pesquisa, o CIGS tem local de destaque na galeria dos melhores zoológicos do país. Nada de extraordinário, é verdade, mas comparando-se com a estrutura média dos cativeiros nacionais, o CIGS merece boas notas, com áreas amplas, animais saudáveis, ambiente igualmente agradável para os visitantes, localização privilegiada e uma boa gestão por parte do exército.

Ainda devemos ir um pouco mais além, isso não é a melhor parte. Anualmente dezenas de onças passam pela instituição, vítimas dos mais diversos problemas, como tráfico de animais, armadilhas, entre outros. Muitas são devolvidas à natureza, órfãos são integrados ao plantel do zoológico. Não tive tempo de pesquisar o número exato de animais cativos, mas arriscaria, com base na minha última visita ao zoo em 2013, que o CIGS mantém em cativeiro algo como 15 animais desta espécie atualmente, como o macho da foto a seguir, fotografado nesta minha última visita.

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Em resumo, a atuação do exército brasileiro na preservação das onças vai bem além da manutenção das dependências do zoo. Com um amplo e relevante trabalho de proteção de toda Amazônia, dentro de suas limitações, o trabalho merece aplausos, mais ainda no que diz respeito ao maior de nossos felinos, que dispensa apresentações e que ilumina o folclore nativo desde muito antes das fatídicas caravelas de Cabral. O exército está no front protegendo também os animais que estão em liberdade e isto é digno dos mais sinceros elogios.

Ponto. Podemos virar a primeira página.

Não é de hoje que as onças do CIGS são transformada em mascotes nos mais diversos eventos. Dada a rotatividade natural ao trabalho militar brasileiro, é de se supor que há rotatividade também no soldado que comumente “conduz” o animal a tais apresentações, rotatividade nos demais militares que estão por perto nestas apresentações, há as mudanças de ambiente, a mudança de público, entre outros. Buscar um fator que justifique a mudança de comportamento de Juma é fácil, pois há infinitas possibilidades. Por mais que transformá-los em “suvenir fotográfico”, como no famigerado zoológico argentino de Lujan e outros locais onde esta prática condenável é praxe, seja uma tentação pra maioria das pessoas, definitivamente o local deles não é no meio da população. Não para a proteção das pessoas, como todos pensam, mas sim para proteção dos próprios bichos. É claro que pra sociedade a vida da onça valeria menos que a da pessoa atacada em qualquer incidente que porventura acontecesse.

O que tem que ficar claro é que ao menos agora o exército precisa assimilar a lição que, apesar do excelente trabalho que realizam, deixam a desejar há tempos com as exibições públicas dos animais fora da boa estrutura do zoológico do CIGS. Lembro-me bem ainda da época que competia, uma onça do CIGS (podia ser a Juma), foi exposta de maneira semelhante na largada de uma etapa do X-Terra, além de tantos outros eventos políticos/sociais/esportivos de Manaus em que ao menos uma onça do CIGS estava lá pra ser exibida ao público.

Confesso que não me assustou a infeliz frase do Coronel Evelyn, afirmando publicamente não saber se é correto ou não a exibição das onças, mas que é tradição e sempre foi feito pelo exército. Sei que causou revolta entre os amigos, é óbvio que tal prática é absurda, mas a mentalidade da caserna infelizmente é bem essa mesmo, na praticidade que os oficiais do exército executam seu dia-a-dia e com o radicalismo com que seguem as tradições, o exército nunca fez uma autorreflexão do tamanho do absurdo que é esse exibicionismo barato.

Ironia do destino é que a morte de Juma ao menos certamente trará mudanças. Uma pena que foi necessário o sacrifício de um exemplar de uma espécie tão criticamente ameaçada. Não é nada fácil reproduzir onças em cativeiro, mas existem casos de sucesso, e quem sabe Juma não seria mais uma (nem sei se Juma já foi mãe ou se ainda estava em idade reprodutiva), mas, sem dúvidas, perder uma matriz já habituada ao manejo humano e por motivo tão pueril e estúpido, numa sequência grotesca de falhas, desde a localização bizarra em que a colocaram, até a ineficiência dos tranquilizantes, culminando na idiotice maior do tiro fatal, é digno das maiores críticas.

Críticas negativas merece também a postura das forças armadas após o incidente, tentando justificar o ocorrido com declarações atravessadas de oficiais de alta patente mostrando o lado positivo do trabalho que realizam há anos. Novamente, não apaga o trabalho de sucesso, mas sequer fazer uma mea culpa ficou feio, horrível. Admitir que não havia um plano eficiente de resposta ao risco também.

Por fim, críticas também a algumas pessoas que estão aproveitando o oba oba pra atacar o CIGS de maneira desonesta, desmerecendo o bom trabalho que realizam.

Essa página não devemos virar. Que amanhã seja um novo dia. Que o exército exclua a exibição dos animais de seus eventos públicos. Lugar de onça é obviamente nas nossas reservas ambientais e, quando for impossível esta primeira opção, dentro de nossos ecoparques e zoo, cercada de profissionais qualificados, como o zoo do CIGS. Que o episódio não seja esquecido e que o legado das Olimpíadas seja maior do que uma ciclovia destruída e uma onça morta de maneira estúpida.

 

P.S.: a seguir, algumas imagens dos moradores do zoo do CIGS na última visita que fiz à instituição.

Indicações

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Fotografia / Meio Ambiente

6 anos de AFNATURA

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Hoje a Associação de Fotógrafos de Natureza (AFNATURA) completa seis anos de muitas lutas e conquistas para todos que trabalham registrando o maior patrimônio brasileiro, o seu patrimônio ambiental. Eu tenho muito orgulho de ser um dos primeiros filiados da Associação.

Pra quem quiser conhecer melhor a AFNATURA e se filiar (a entidade não faz qualquer distinção entre fotógrafos experientes ou iniciantes), basta acessar www.afnatura.org.br

Nosso presidente Gustavo Pedro relembra hoje um pouco dessa história e a relevância desta instituição que hoje participa ativamente da elaboração das políticas públicas que envolvem a fotografia de natureza. 

 

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