Luiz Netto

Fotografia & Meio Ambiente

Date archives março 2017

Fotografia

A câmera em “Atenção Plena”

A dica de hoje vai com minhas sugestões para deixar a câmera em estado de “Atenção Plena”, o mais preparada possível pra aquele momento efêmero que se desenha a sua frente e exige rapidez do fotógrafo.

Reza a tradição oriental que a katana, uma vez desembainhada, só haveria de ser guardada com o sangue oponente. Os séculos se passaram e muitos dessas tradições foram levadas para o mundo empresarial de muitos dos países do Pacífico.

A fotografia analógica tinha muito disso. As limitações impostas pelo filme fizeram os fotógrafos da velha guarda serem um tanto mais cuidados e primorosos com cada enquadramento do que a minha geração, nascida no berço esplêndido digital.

A compilação tecnológica embarcada em cada câmera fabricada no século XXI criou uma geração de fotógrafos de dedos nervosos, arredios e cada vez menos preocupados com enquadramento primário, a possibilidade da repetição causa, de fato, esse comodismo.

Quando falamos de fotografia de natureza, a coisa ainda muda de figura, e muitas das técnicas dos grandes mestres do passado analógico ainda se fazem presentes, sem nenhuma alteração, no mundo digital. De nada adiantará disparar 200 fotos a 10 quadros por segundo na hora que um raro jacurutu passar voando na sua frente, se neste breve instante você não estiver de fato preparado previamente. Quem já passou pela frustração de apertar o disparador com a lente ainda com tampa no momento que aquele bicho raro cruzava rapidamente bem a sua frente, sabe o que estou falando.

O fotógrafo de natureza deve viver sempre no estado de Atenção Plena, que a meditação nos ensina. Aquele breve e efêmero momento com a espécie que você “caçou” durante anos pode não se repetir, aliás, naquelas circunstâncias, certamente jamais se repetirá, “nunca mergulhamos no mesmo rio” já diria Heráclito de Efeso. Certamente você até se encontrará com novos exemplares daquela espécie, mas em outro local, em outras condições de luz, em outros enquadramentos. A foto perdida é foto perdida.

Para tanto, o estágio de Atenção Plena jamais será suficiente se sua câmera não estiver o mais próxima possível da configuração ideal na hora do clique. Não é mistério, haverá momentos especiais em que o fotógrafo não terá tempo pra fazer qualquer tipo de ajuste, admitamos, aquela sua foto linda pode vir de um “susto”, e a “premonição” começa com estender a Atenção Plena para seu equipamento.

Desta feita, seguem algumas breves dicas do que costumam fazer quando estou embarcado em meio à natureza. Costumo sempre deixar a câmera inicialmente sempre neste modo, especialmente quando estou me deslocando, já pensando naquele momento em que não terei tempo para fazer qualquer ajuste no equipamento:

  • LENTE SEM TAMPA – Alguns colegas, especialmente nos momentos de longos deslocamentos, ainda costumam colocar as tampas das lentes para “proteger” da vegetação agreste. Não é preciso muito esforço para entender o quanto isso é não aconselhável. Filtro UV sempre, a menos que você já esteja usando um outro filtro, como um polarizador. Os UV’s por mais que tenha suas funções ópticas, tem sim o objetivo primário de proteger a lente. Dê preferência aos filtros UV da mesma marca da lente, o acoplamento óptico em alguns casos escurece menos a configuração final, que no caso do uso de filtros genéricos.
  • ISO MÉDIO – As altas copas das árvores fazem a noite chegar mais cedo para os seres que, como nós, não tem capacidade de voar sobre as árvores. Mesmo ao meio-dia as altas luzes causam “altas sombras”. Assim sendo, a depender do equipamento que estou usando, deixo meu ISO pré-configurado para um pouco menos da metade de seu range, quando a mata é muito fechada. Por exemplo, se a câmera apresenta um desempenho satisfatório até o ISO 12800, a deixo um pouco abaixo do ISO 6400, por volta dos 4000, mas é preciso ter o feeling e o bom entendimento do equipamento que está usando, especialmente se sua câmera apresenta muita granulação já no ISO médio. Deixo o ISO nestes valores pra garantir uma maior velocidade sem tanta perda de qualidade, além de aumentar a probabilidade de “congelar” aquele bicho mais rápido.
  • FLASH DESLIGADO – Essa dica é um complemento do anterior. Sigo uma dica do Mestre Luiz Claudio Marigo e costumo andar com o flash acoplado a câmera mesmo de dia, para aquelas fotos em que o mesmo se faz necessário, mesmo com a luz natural às tantas, entretanto, apesar de acoplado, ele permanece desligado. Uma fonte de luz artificial em ambiente aberto e difuso como as nossas florestas exige cuidado, estudo prévio e tempo para sua configuração. Tempo é justamente o que você não possui na hora de uma foto rápida e se é pra ter uma luz artificial não configurada para uma ocasião, melhor deixá-lo desligado. O ISO nos valores que falamos antes, ajudam nesta questão e teoricamente fazem o flash ser menos necessário.
  • DIAFRAGMA BEM ABERTO – Acho válido os fotógrafos que preferem deixar a câmera inicialmente na nitidez máxima de suas lentes, mas como estamos falando de bichos fugidios a passar rapidamente, querer desfocar o fundo é sempre uma opção interessante. Somando-se às dificuldades de luzes na mata fechada, abrir o diafragma é sempre minha opção favorita, garantindo assim as maiores velocidades possíveis, com fundo desfocado.
  • PRIORIDADE DE ABERTURA – A grosso modo, deixo a câmera em prioridade de abertura nestes momentos, de forma que caso haja algum tempo mínimo pra configuração, inclusive se for pra ajustar a velocidade um pouco pra cima ou pra baixo, através de ajustes indiretos modificando a abertura.
  • TELE DE ATÉ 400 mm – Sempre, sempre, sempre entro na mata com mais de uma câmera. Quem tem uma, não tem nenhuma, quem tem duas, tem uma. Confesso que procuro evitar ao máximo trocas de lentes, por vários motivos, e perder uma “foto rápida” é um deles. Deixo sempre uma tele de até 400 mm (às vezes com o teleconversor acoplado) e outra com a grande angular. Aliás, em viagens mais importantes e especiais já cheguei a andar com duas câmeras comigo e deixando uma terceira de stand by com uma macro pronta no pescoço do guia. Em resumo, a câmera que fica comigo no estágio de “Atenção Plena” é a tele de até 400mm (muitas vezes com um TC de 1,4 ou 2,0 se não estiver muito escuro, sabendo que neste último caso perco o autofoco). O uso da 400 mm não é à toa. É leve o suficiente pra ser usada ainda na mão. Muitas vezes ainda acoplo um monopé, especialmente quando a mata não é muito fechada. As superteles realmente não são nem um pouco agradáveis nestas horas. Ficam na mochila e são retiradas em momentos mais propícios. Idem para as grande angulares que são usadas normalmente em momentos que o fotógrafo terá todo tempo do mundo para pensar. Para fotos rápidas daquela pássaro rápido, sem dúvidas, uma tele de até 400mm. Quando, por acaso, trabalho com uma câmera apenas, sempre troco para a tele de 400mm na hora de me deslocar.
  • CÂMERA EM DISPARO CONTÍNUO – Não é muito difícil aceitar isso. É hora de jogar com a tecnologia a nosso favor. O bicho vai passar de forma efêmera a sua frente, hora de garantir o máximo de cliques possíveis.
  • CÂMERA E LENTE RÁPIDAS – Fica no meu pescoço, a postos, das câmeras que possuo, a de maior quantidade de cliques por segundo e a tele que possuir o autofoco mais rápido. Isso vale pra qualquer set de câmeras.
  • AUTOFOCO CENTRAL – Hoje, chegamos a era em que o autofoco das câmeras é superior a qualquer olho mais treinado que insiste em usar sempre o foco manual. Novamente, hora de jogar com a tecnologia a nosso favor. Como estamos falando de uma espécie qualquer que irá passar rapidamente a sua frente, deixo o autofoco pontual no centro do quadro, de forma que na hora do “tiro”, já vou condicionado a deixar o bicho no meio do quadro.
  • MEDIÇÃO DE LUZ – Aqui costumo variar. Depende um pouco do feeling na hora. Sigo com a medição matricial quando a luz está mais uniforme e parto pra pontual no centro do quadro, quando há grande contraste entre altas luzes e baixas luzes, como forma de garantir medição correta onde está meu objetivo primário.

A regras aqui propostas não são nada radicais. Alguns colegas, como já falei, preferem deixar a câmera ainda no modo M, ou as lentes na nitidez máxima, vai de cada cabeça e acima de tudo de cada estilo. O mais importante é o fotógrafo conhecer bem as características do equipamento e, principalmente, também ele, o fotógrafo, estar no estado de Atenção Plena. Sempre!